Contra a sindicância dos jogos

Meu grande sonho era ser professor deste instituto. Um sonho difícil
de concretizar (acho que a palavra mais adequada seria trabalhoso),
pelo menos para mim. Precisaria melhorar meu rendimento acadêmico, não
ter reprovações, pelo menos nas matérias de computação, terminar meu
projeto de iniciação científica com êxito, manter uma boa relação com
os professores do instituto, estudar muito, encontrar uma área de
pesquisa e projetos para trabalhar em pós-graduação. Mesmo assim, era
mais difícil ainda destruir este sonho. Por muitas vezes, obtive notas
baixas, fui reprovado em eletrônica, não foram poucas as ocasiões em
que passei semanas sem conseguir progresso algum em meu projeto de
iniciação científica, mas nada disso me abalou, nada disso conseguiu
destruir meu sonho.

Além disso, eu estou me dedicando de todas as formas para ser um bom
profissional. Estou estudando pedagogia, pretendo ser auxiliar
didático e até estagiar em escolas ou cursinhos para ser bom em
ensino. Também estou pesquisando várias áreas de meu interesse, seus
potenciais de exploração e de estudo, lendo bastante, participando de
simpósios e palestras, para ser bom em pesquisa. Isso pois acredito
que um docente universitário deve ser bom em ensino e pesquisa, e não
apenas em uma dessas áreas.

Toda essa minha dedicação não significa nada. E existe algo que
conseguiu destruir meu sonho.Muito mais forte que um parecer negativo
da Fapesp, muito mais forte que uma nota baixa.

Recebo um correio eletrônico da Coordenadoria de Graduação, dizendo
que deveria pegar "URGENTE" (assim mesmo, em letras maiúsculas) um
documento "de meu interesse" na secretaria de cursos. Ao chegar lá,
para receber o supra citado documento que tanto me interessava, a
secretária fala: "Me acompanhe", e me leva até a sala de uma
professora, que não se encontrava, e depois até a sala de outra, que
também lá não estava. Recomendou-me então, tentar novamente um outro
horário conversar com qualquer uma dessas professoras. Finalmente
recebi o documento, que dizia que eu deveria me apresentar perante a
comissão em uma data e horário estipulados para prestar declarações a
respeito dos fatos referentes ao uso indevido dos laboratórios de
Ensino do IC-3, ocorrido nas dependências deste Instituto.

Compareci conforme pedido a mim. Uma datilógrafa, uma cadeira
solitária perante uma mesa. Atrás dessa mesa três professores do
instituto. Dois microfones, um para os interrogantes e outro para o
interrogado. Um gravador, gravando tudo o que era dito. Um ambiente
quase que policial, para não dizer militar. Perguntas incisivas eram
feitas. Às vezes até achava que algumas tinham objetivo de me fazer
cair em contradição. Ao final, tive que assinar o depoimento.
Fui tratado como um criminoso. E tudo porque
gosto tanto do instituto, que passo até meus momentos de lazer aqui.

Sim, joguei jogos em rede. Agi em desacordo com o artigo 12 do termo
de compromisso para uso dos laboratórios que assinei. Recebi uma
advertência e pelo que me lembro, parei de jogar depois dela. Gostaria
de que tivessem me chamado e falado: "Você jogou e isso é
proibido. Aqui está uma suspensão para você.", e não receber
um tratamento de detento político, de comportamento
subversivo. Chegaram inclusive a me pedir outros nomes de pessoas que
também comigo jogavam.

Como posso manter um sonho de seguir carreira em um lugar que me trata
como criminoso, que me interroga tentando encontrar mentiras? Eu
posso dizer que é uma coisa terrível ter o seu maior sonho
pisado. Tenho vergonha, mas preciso dizer que este tratamento fez-me
inclusive chorar, e foi um sacrifício enorme aguentar até chegar em
casa e não ser visto por ninguém.

Há grandes chances de receber uma suspensão que
poderia acarretar inclusive reprovações em matérias de computação, que
eliminariam qualquer chance de realizar uma pós-graduação aqui, talvez
até em outras universidades. Eu acho que é uma punição deveras severa
por infringir uma regra.

Que saudades da palmatória...

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